De repente uma frase
de Victor José Hohl, ex-economista do Banco Central, que resolveu nos mostrar como funcionam os bastidores do mercado financeiro, me faz avançar mais um pouco:
“Refletimos tão pouco sobre o
que nos leva a assumir créditos, financiamentos, juros embutidos e dívidas que
por sua vez nos fazem assinar mais créditos, financiamentos e juros embutidos
que nas raras vezes que acordamos para nós mesmos nos perguntamos qual o sentido
de nossas vidas”, me fala Victor José, nos jardins do London Flat, na
Alameda Jaú, em São Paulo.
Há duzentos anos, me
conta Victor José, o Grande Irmão Financeiro comanda um exército de
publicitários, economistas, psicólogos e estrategistas ávidos a transformar em
mercadorias, serviços e marcas nossas mais recônditas aspirações humanas.
A ponto de muitos
(talvez a imensa maioria) acreditar que é possível comprar e interagir com mercadorias e situações que nos ajudem a traduzir, uns para os outros, e principalmente para nós mesmos, como mais
segurança e mais alegria e, ainda por cima, sermos felizes por agir assim.
As aspirações mais
sutis, voláteis, intangíveis que compunham o que entendíamos como o “espírito
humano”, a “alma coletiva”, que nos motivava sonhar e nos mobilizava
coletivamente por um mundo melhor, hoje podem ser compradas a prestações, ao
longo de toda uma vida. Pois foram devidamente traduzidas em casa própria, em
previdência privada, no carro do ano, em planos de saúde e, até mesmo, numa
velhice saudável e tranquila.
Investimos vastas
energias para comprar e pagar pela segurança de nossas vidas futuras. E
como indivíduos nos tornamos gotas num mundo liquefeito, tão bem definido
pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no seu livro “Modernidade Líquida” (Jorge
Zahar Editor) e tão bem manipulada pelo Grande Irmão Financeiro.
Por isso, nos ensina
Victor José, quando pensamos o futuro nosso e dos nossos filhos nos tornamos
cúmplices dos porta-vozes do Grande Irmão Financeiro. Acreditamos piamente que
a única saída é investir a longo prazo numa carteira diversificada de ações ou apostar nossas reservas em renda fixa ou
fundos de investimento.
Assumimos
financiamentos de longo prazo só para ter um teto que chamemos de nosso. E consumimos
grande parte de nossa renda em planos de aposentadoria privada.
“Sempre através de
uma corretora ou de um banco porque depois que acreditamos na salvação e por
sermos cúmplices dos emissários do Grande Irmão Financeiro, preferimos pagar e
não pensar muito nas consequências. Pois acreditamos que esses intermediários
nos vendem também a tranquilidade, a segurança, alegria e felicidade enquanto
estivermos ainda aqui na Terra”, fala Victor José.
Nos submetemos aos
agentes do Grande Irmão Financeiro porque como indivíduos-gotas, nos acomodamos
nas vastas represas que hoje definem as comunidades e as organizações empresariais.
E abrimos mão da
energia que acumulamos em nossa geração constante de riquezas a serviço dessas organizações-represa (afinal, temos
muitas dívidas para acertar, muita tranquilidade futura para comprar) em favor
de uma minoria, cada vez mais rica, a serviço do Grande Irmão Financeiro.
Victor José me chama
a atenção para o site Biz Invest. Lá consta, com todas as letras:
“O marketing é
realmente um negócio fascinante, algumas propagandas de planos de previdência
privada alardeiam sobre as fortunas que podem ser geradas no longo prazo, mas a
verdade é que qualquer ‘mix’ de investimentos bem feito geram esse resultado.”
Preferimos a sedução
dos marqueteiros do Grande Irmão Financeiro porque nos falta, conta Victor José,
a Autoconsciência Financeira.
Uma consulta rápida
na internet nos leva a sites como o Biz Invest que nos ajudam, por exemplo, a
realizar as seguintes projeções, sob a bandeira de “previdência privada”.
Um aporte inicial de R$
10 mil, mais 420 mensalidades de R$ 600,00 entre os 25 e os 60 anos, lhe
garantirá uma aposentadoria (rendimento vitalício) de R$ 3.751,91.
Se seu gerente de
banco apresentar essas mesmas contas para você, ele ou ela estará falando a
verdade. Pois são cálculos que se baseiam em rendimentos apurados a partir de
juros sobre juros, aplicados de maneira conservadora durante 35 longos anos.
Mas basta ter sido
inoculado pela vacina da Autoconsciência Financeira que Victor Jose tão
zelosamente nos inocula, que você descobrirá sozinho ou com ajuda de sites como
o Biz Invest que foram investidos R$ 262.000,00 acumulando um patrimônio de R$
707.048,28.
Uma conta rápida
mostra que 63% do patrimônio acumulado, ou seja, R$ 445.048,28, é composto de
rendimentos, consequência dos juros sobre juros, ao longo de 35 anos.
Mas...
É aí que entra o
Grande Irmão Financeiro. Caso você conhecesse a Autoconsciência Financeira de
Victor José Hohl descobriria que as contas acima são feitas pelo gerente de seu
banco que cobra uma taxa de administração mensal de 2,5%.
Victor José faz
questão de se apoiar em informações disponíveis na internet ou em estudos publicados e não
contestados pelos agentes do Grande Irmão Financeiro.
“Com a
Autoconsciência Financeira temos a pretensão de ajudar a criar um novo cidadão
financeiramente autoconsciente para proteger seus próprios interesses”,
explica. “Para se tornarem independentes e se livrarem dos manipuladores do
mercado financeiro”, afirma.
Mas...
O que aconteceria se
a taxa do seu banco fosse reduzida para saudáveis 1%. “Nesse caso, seu
patrimônio acumulado saltaria para R$ 1.009.975,26. E sua aposentadoria (ou
renda vitalícia) seria de R$ 5.359,37.
Pasme. O banco cobrou
de você R$ 300 mil para administrar de forma óbvia e conservadora o seu próprio
dinheiro. Um imenso naco de sua renda, transferida mensalmente para seus
cofres, durante 35 anos ou 420 meses.
O sistema bancário,
em nome do Grande Irmão Financeiro, aproveitou sua ansiedade em comprar a longo
prazo a tranquilidade e a segurança da sua aposentadoria e o privou de R$
1.607,46 na sua merecida (e paga) renda vitalícia. E, de quebra, transferiu do
sul bolso para os cofres de uma elite ávida em concentrar renda os seus suados
R$ 300 mil.

