terça-feira, 3 de setembro de 2013

“Cuidado com os agentes e gerentes do Grande Irmão Financeiro”

A cada texto que publico aqui troco ideias antes e depois com Victor José Hohl, ex-economista do Banco Central, que resolveu abrir o jogo e me deixar dividir com você como o Grande Irmão Financeiro mobiliza além dos seus publicitários e marqueteiros (veja post anterior), mobiliza também um exército de gerentes de bancos e gestores financeiros.
Que se especializam em induzir os investidores e correntistas a transferir renda dos seus bolsos para os cofres dos bancos através de juros sobre juros, de taxas de administração e de tarifas de corretagem.
“Cuidado com os agentes do Grande Irmão Financeiro”, me alerta Victor José Hohl, preocupado com o poder implacável do Grande Irmão Financeiro. Comentei com Victor José que exatamente por temer esse imenso poder que fundamento todos os textos publicados aqui, com informações já divulgadas por órgãos de imprensa sérios.
O que faço a mais é aproveitar as dicas de bastidores que ele, Victor José, me passa corajosamente, para usar como fio de meada que me ajuda a angular informações que venham nos ajudar no programa de Autoconsciência Financeira, que é, aliás, o objetivo de nossa parceria.
Pois bem, hoje vamos falar das brutais transferências de renda que os bancos realizam com quem decide aplicar seu dinheiro em Bolsa.
Os jornalistas João Sorima Neto e Roberta Scrivano, de “O Globo”, publicaram em 17 de março desse ano, a matéria “Investir em ações pode sair caro: taxas corroem até 50% do ganho”.
O texto mostra que as tarifas de corretagem variam de “R$ 1,99 e o mais alto chega a R$ 25, não importando se o investidor negociou R$ 100 ou R$ 10 milhões”.
E num exemplo típico do jornalismo de serviços de “O Globo”, relatam: “Isso sem contar a taxa de custódia, valor que é cobrado mensalmente pelas corretoras para ‘guardar’ e administrar as ações. Somando todas as taxas, no fim das contas, a rentabilidade do investimento em ações pode ser corroída em até 50%.”
O ponto alto dos serviços prestados por “O Globo” é o detalhamento de uma aplicação que promete 5% ao mês, que faz com que o investidor desavisado (a imensa maioria) termine com minguados 3,12%, numa situação ou a metade dos 5% prometidos, em outra.
Acompanhe a simulação de uma das fontes do jornal:
“Ele usa como exemplo um investimento de R$ 5 mil em ações, com ganho de 5% num período de 30 dias. O rendimento bruto é de R$ 250. Considerando que o investidor vai pagar a taxa de corretagem mais alta do mercado, R$ 25; uma taxa de custódia de R$ 10, a média do mercado, além do 0,033% referente aos emolumentos e liquidação, cobrado pela BM&F Bovespa, o rendimento cai para R$ 156,17. Ou seja, os 5% de rentabilidade se transformam em 3,12%.”
O texto continua: “E se a taxa de corretagem for a da tabela Bovespa, que é de 0,5% sobre o valor do negócio mais R$ 25,21, os R$ 250 se transformam em R$ 104,50. A rentabilidade cai para menos da metade”.
No geral, a matéria ajuda. Mas ao tentarmos assimilar as principais sugestões, temos a sensação de os jornalistas se esforçaram para orientar o leitor, tomando cuidado para não arrombar a porta do Grande Irmão Financeiro.
É como se os jornalistas estivessem num congresso de raposas habilidosas que tentassem provar suas boas intenções, enquanto aguardam o repórter fechar seu bloco de anotações e virar as costas, para caírem em cima das galinhas indefesas.
“O Globo” é um veículo insuspeito mas basta um pouquinho de experiência nesse ambiente de informações para percebermos e agradecer um jornal tão tradicional mesmo quando adota cuidados para publicar informações tão corajosas.
Apesar de editá-las como “alertas” em vez de escancarar, como tentamos fazer aqui, e tratar o assunto como uma denúncia que mobilize seus leitores.
Revista Exame
Mas vivemos novos tempos. Em que o universo conspira a favor da Autoconsciência Financeira. A ponto de podermos contar com as dicas de bastidores sinceras e corajosas, que nos passam o ex-economista do Banco Central, Victor José Hohl.
E a partir dessas dicas refletir com nosso respeitável leitorado, em torno das análises como a publicada na “Revista Exame”, Edição 1048, que está nas bancas, com data de 4 de setembro de 2013.
No “Guia Exame Investimentos Pessoais/2013”, a gente aprende a partir da página 10, que “4,8 milhões de investidores estão jogando dinheiro fora – ou melhor, jogando dinheiro no bolso dos gestores que administram seus recursos”.
Trata-se, explica a revista, de quase metade de cotistas do Brasil. E avança: “Essa gente toda paga taxas de administração muito mais altas do que o que seria razoável”.
Coitados.
Corajosa, não se esperava outra atitude da “Exame”, a revista dá nome aos bois, ao falar do fundo DI Classic, o mais caro do país, do banco Santander, que cobra 5% de taxa de administração.
“Em 12 meses, o fundo teve um rendimento líquido de apenas 2,4%, o que corresponde a cerca de 4 milhões de reais, divididos entre 176 mil cotistas. Já o banco recebeu 161 milhões de reais, como resultado da aplicação da taxa de administração sobre o patrimônio.”
Pasme! E faça uma continha simples ao dividir R$ 4 milhões por 176 mil cotistas. Chegará ao valor de R$ 22,72 por cota, ao final de 12 meses. Enquanto isso o Santander (quem afirma é a insuspeita “Exame”) embolsou R$ 161 milhões, no mesmo período. Ou, aproximadamente, 7 milhões de vezes mais do que o rendimento de cada cota.
Só essa informação seria motivação suficiente para você correr às bancas e comprar a “Exame”.
Mas calma aí, que tem mais. Na mesma edição da revista, vem um box que trata do Hiperfundo, do Bradesco, que é o maior fundo DI do mercado, com um patrimônio de R$ 5,4 bilhões e 341 mil cotistas, que pagam uma taxa de administração de 3,9%, “uma das mais altas do mercado”, segundo a revista.
Vamos às contas da “Exame”: “No último ano, o fundo rendeu 213 milhões de reais em taxas. O rendimento para os cotistas foi de 191 milhões de reais nos últimos 12 meses.”
Compare, agora, os ganhos de cada cota com o do Bradesco: R$ 191 milhões dividido por 341 mil é igual a R$ 560,11 por cota. Enquanto isso, o Bradesco embolsou R$ 213 milhões algo ligeiramente superior a 380 mil vezes o repasse a cada cota.

Isso posto, espero que você concorde com Victor José Hohl e comigo em nossa cruzada a favor da Autoconsciência Financeira.

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