quinta-feira, 12 de setembro de 2013

As armadilhas de transferência e concentração de renda

O ex-economista do Banco Central, Victor José Hohl, me conta como funciona o covo, a armadilha preferencial dos índios e caiçaras, usada para a pescaria ininterrupta.
“Os índios e os caiçaras brasileiros constroem eles mesmos uma armadilha para peixe conhecida como covo. Se trata de uma armadilha feita de palha, bambu ou nas regiões mais urbanas, de redes de aço dessas usadas em galinheiros”, diz Victor José.
É tão simples o conceito que até mesmo as crianças já desenvolveram um covo construído com garrafas pets. (No pé do texto tem um link para o vídeo).
A teoria que sustenta a eficiência da armadilha é simples. Uma estrutura vazada, permite a passagem da água e mantém uma isca no seu interior. “Possui um buraco que permite o peixe entrar em busca da isca, mas não o deixa sair”, explica Victor José.
É uma armadilha que funciona 24 horas, 7 dias por semana. E de tempos em tempos, o indígena ou o caiçara passa recolhendo os peixes, que continuam ali, presos, mas vivos (e portanto conservados) e prontos para o consumo.
Qualquer semelhança entre o covo e a transferência de renda dos nossos bolsos incautos para os cofres do sistema financeiro não é, absolutamente, coincidência.
Podemos discutir e aprofundar as análises de concentração de renda como faz o portal Viomundo.
Mas nós somos bagrinhos que alimentamos, contra nossa vontade, os covos do Grande Irmão Financeiro. E ao buscarmos a ajuda de Victor José Hohl queremos receitas simples para evitar que continuemos a cair nas armadilhas que nos são colocadas a cada transação comercial.
Seja para comprar um eletrodoméstico, um carro ou uma casa. Somos achacados de maneira persistente, 24 horas por dia, 7 dias por semana, do primeiro choro ao último suspiro, e quando as análises do portal Viomundo nos mostram que vivemos num Brasil com uma das maiores concentrações de renda do planeta, não nos assustam, pois já sabíamos disso antes.
Basta avaliar o limite da inadimplência a que somos mantidos, depois de décadas trabalhando, para entender que para algum lugar vazaram as riquezas que ajudamos a gerar.
Apenas gostaríamos de buscar uma alternativa para estancar essa sangria desatada de nossos bolsos. E é aí que entram as sugestões, alertas e reflexões que Victor José Hohl nos passa através da Autoconsciência Financeira.

Como funcionam os covos financeiros
Nos viciamos, desde a tenra infância, nas iscas do consumo. A ponto de muitos de nós nos percebermos socialmente humanos através dos bens que possuímos ou pelos serviços que desfrutamos.
Como os peixes, acabamos retidos nas armadilhas das dívidas traduzidas em créditos imobiliários, que consomem vidas inteiras; ou em prestações com juros embutidos, que nos acompanham por anos, e que chegam, em algumas situações, a triplicar o que pagamos por nossos bens.
“Mas diferente dos peixes, o endividamento, muitas vezes fruto de uma tentativa de investimento e de alguma melhoria na vida, é assumido solitariamente”, explica Victor José Hohl.
É essa solidão absoluta que amplia (e confirma) a culpa individual e nos torna impotentes, mesmo quando sabemos que fomos induzidos ao crédito anabolizado com tarifas arbitrárias e juros sobre juros. Nos tornamos culpados assumidos e perdedores no cassino do Grande Irmão Financeiro.
E agora José?
Endividado, prestes a ser abandonado pelos amigos e parentes, você sente a qualidade de vida e os anéis escaparem pelos dedos. Só te resta o poeta Carlos Drummond de Andrade:

“E agora, José?/A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu,/a noite esfriou,/e agora, José?/e agora, Você?”

Sim, e agora Você?
Para os banqueiros e financeiras a dívida é tratada sem culpa. Principalmente porque quando é dívida entre os bancos é chamada de “transferências interbancárias de ordens de crédito”.
Numa operação que se repete milhares de vezes, todos os dias, com regras claras, propostas pelos próprios banqueiros e regulamentadas pelo Banco Central.
E se o pior acontece, se algum banco entra em colapso, o Estado é acionado e, de boa vontade, faz jorrar dinheiro público para a proteção do Grande Irmão Financeiro. Como aconteceu no mundo inteiro e no Brasil, em 2008.

Escapar da armadilha
Mas não somos peixes. Felizmente. E temos uma chance real de reagir e mudar nossa situação de vítimas preferenciais do Grande Irmão Financeiro.
Nos lembra Howard Rheingold, autor do livro “Smart Mobs” (“A sabedoria das multidões”, numa tradução livre): “A repentina erupção coordenada da cooperação entre as pessoas precipitou o colapso do comunismo”. E isso numa época e regimes em que a repressão inibia as manifestações individuais ou coletivas.
Mesmo assim, como acontecem em todas as mudanças sociais, a autoconsciência se cristaliza aos poucos até que as multidões vão para as ruas, se posicionam contra o que as oprime e como insiste Elis Regina em “Cartomante”: “Cai o rei de Espadas/Cai o rei de Ouros/Cai o rei de Paus/Cai não fica nada.” Ouça a canção aqui.
Não somos peixes, mas ainda assumimos as culpas pelos créditos que nos foram impostos. Mas aos poucos, damos razão às reflexões e lições que nos passa Victor José Hol, ex-economista do Banco Central.
Através da Autoconsciência Financeira vamos aprender como os milionários se tornam bilionários. Concentrando renda através dos covos que criam ao comandar o fluxo de crédito para seus cofres.
Nos impondo créditos escorchantes e vitalícios apenas por termos ambicionado conquistas como um carro, uma casa, uma roupa boa, itens que nos asseguram a plenitude humana. E pelos quais estamos dispostos a pagar o preço justo.
Ao reagir, interromperemos em grande parte o fluxo do nosso dinheiro para os cofres do Grande Irmão Financeiro. Vamos precisar, claro, da Autoconsciência Financeira.
E não é para ficarmos ricos. Mas para viver em paz com nossas finanças ao aprendermos a gerenciar, de acordo com os nossos interesses, os bens e valores que acumulamos.

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